Tangolo Mangos apresenta “PEDAGIOS Y CARONAS”

Tangolo Mangos apresenta “PEDAGIOS Y CARONAS”

Créditos: Giovanna Castellari

Gravado ao vivo em estúdio, o segundo álbum da banda baiana é retrato de uma performance enérgica e mais madura de suas ideias

 

Para apresentar um novo disco, a Tangolo Mangos tinha o desafio de dar continuidade ao maximalista “Garatujas” (2023), seu álbum de estreia. Poderiam retomar um processo artesanal, caseiro e íntimo que marcou a construção de seu primeiro trabalho. Entretanto, após mais de 100 shows, turnês pelo Brasil e Europa, algo mudou: agora, a banda tinha tempo de estrada.

A estrada também pode ser medida de tempo. Pela invenção desse novo relógio, se marca não somente os minutos, mas momentos. Toda experiência que se vive ao movimentar-se nas extensões do espaço. Aqui não se confunde os pés e aperta o freio, porque custa. O tempo de “PEDAGIOS Y CARONAS” é esse de estrada, não o nosso. É um que só a memória da banda pode medir.

Por isso, o grupo decide manter-se em movimento. Este novo trabalho não se dobra em si mesmo, mas permanece em fluxo. Não há tempo de vestir-se, tampouco de se perder nos enfeites: “Quando gravamos o ‘Garatujas’, percebemos que as músicas que ficaram mais legais foram as que gravamos ao vivo. Há uma energia que não existe quando você grava camada em cima de camada. Ao vivo há uma coesão, não um quadro em branco em que podemos colocar todo e qualquer instrumento do mundo. O que existe ali é nossa música”, comenta João Denovaro, baixista, compositor e um dos vocalistas da banda.

A gravação do disco ocorreu em Salvador no estúdio Ori de Apu Tude, que também assina a co-produção do trabalho. O processo de estar em um estúdio profissional pela primeira vez para registrar, não somente ideais composicionais, mas uma performance de grupo, colocou à prova vícios e antigas percepções da banda sobre o que é representar suas composições em uma gravação. O resultado disso é um trabalho muito mais direto, com canções objetivas e de ideias sólidas. É um registro mais fiel à energia que a banda apresenta ao vivo, mas sobretudo, aos contornos estéticos que o grupo decide delinear em suas composições. Elas nunca soaram tão vivas.

O formato, entretanto, não desmerece uma construção mais elaborada, muito pelo contrário. Os pontos altos do trabalho estão nos encontros entre a potência firme da performance do grupo com os arranjos de sopros e outras realizações em overdub. Para cada camada adicionada, um pequeno universo melódico se abre para colorir a composição. Há, em cada adição, mais intenção.

Em “PEDAGIOS Y CARONAS” o maximalismo característico da banda se expressa de modo mais conciso e, por isso, mais potente. Há mistura de ritmos, há uma diversidade de instrumentos e timbres sobrepostos, mas toda abertura é focada, o que gera um bem-vindo contraste, uma nova cor. Se em “Garatujas” o processo estético de mistura laboratorial se expressa de forma protagonista, em “PEDAGIOS Y CARONAS” o que chega primeiro é a canção.

 

CANÇÕES-ESTANDARTE

A mistura de ritmos brasileiros e nordestinos já característica da banda mantém-se como rumo estético em “PEDAGIOS Y CARONAS”, mas também se consolida a partir de outras influências, como aberturas de anime, City Pop japonês, Funkadelic e Drum N’Bass. Por isso, as seções rítmicas das composições prestam um papel fundamental no trabalho, com pulsos acelerados e energia em liberação. A soma das melodias simples, marcantes e bastante brasileiras com a marcação rítmica das canções estruturam temas rapidamente reconhecíveis e impulsionam ainda mais o trabalho.

Exemplo disso é a abertura do álbum e faixa de trabalho “ARMADURA ARMADILHA”. Um riff enérgico que marca a fronteira entre melodias carnavalescas e energia J-Rock, mas que ganha ainda mais força com a letra em tom de mantra: “Não quero mais me podar / me blindar / me armar / mesmo que a flecha me siga / vai atravessar / ricocheteia no ar”.

Aqui a banda dispõe a temática da vulnerabilidade como mote inicial e que estará presente não somente em palavra, mas como postura da banda perante seu momento de criação. Tudo está, neste disco, mais cru: “A liberdade que arde é correr pelo céu sem o peso dos metais / eles te puxam para trás”.

A proposta de se despirem dos enfeites e apostarem na performance viva de suas composições é sinônimo de tempo: “Se a gente chegasse logo de cara em 2018 em um estúdio como esse, não saberíamos quais batalhas assumir. Talvez escolhêssemos as que não valeriam a pena”, comenta Bruno Fechine, compositor e percussionista do projeto. Por isso, a banda aqui soa, sobretudo, mais madura.

Histórias de juventude e uma energia canalizada compõem o universo temático e estético do álbum, como a dobradinha “GERAIS DO VIEIRA” e “GERAIS DO RIO PRETO”, faixas mais antigas e que remetem a propostas composicionais mais clássicas da banda. Entretanto, o modo como são performadas aqui destoam, no melhor dos sentidos, do que já havia sido feito anteriormente em outros trabalhos. “São canções-estrada para o passado, mas que ainda estão presentes, de alguma forma. Gosto de pensá-las como mapas, mesmo que emocionais, que os meninos construíram desses lugares”, comenta Tota Fernandes, produtora executiva da banda.

Resoluções mais caóticas de arranjo oscilam, também, para com momentos de maior delicadeza, como apresentado em “AÇAFRÃO”. Os arranjos de sopros de madeira somados ao violão de nylon e guitarras mais cristalinas constroem o cenário mais colorido do disco, em um respiro das propostas mais rockeiras do trabalho, ainda que os versos contrastem por certa melancolia. O mesmo acontece com “DOMINÓ” e sua influência Soul, além do início mais singelo de “LUA DE FOGO”, ainda que se resolva em BPM mais acelerado e guitarras com maior energia ao longo de sua duração.

“OHAYO SARAVÁ” e “SOFÁ” destacam-se por seus grooves sólidos e melodias cativantes, assim como a mistura apresentada em “EU E VOCÊ (SKARÊNCIA)”. “VOU ACORDAR COM ESSA NOVA IDEIA NA CABEÇA” encerra o trabalho com a junção natural de samba e pagodão baiano.

Com força rítmica e confiança nas canções, “PEDAGIOS Y CARONAS” apresenta a Tangolo Mangos em uma performance mais crua e mais viva, sem deixar sua inventividade composicional para trás. Em uma estrada que molda e reimagina intenções, pedágio é apenas passagem, mas caronas, uma pura coragem de se estar em movimento.

 

Tracklist

  1. ARMADURA ARMADILHA
  2. EU E VOCÊ (SKARÊNCIA)
  3. OHAYO SARAVÁ
  4. DOMINÓ (Citação: “Falando Nisso”)
  5. SOFÁ
  6. AÇAFRÃO
  7. GERAIS DO VIEIRA
  8. GERAIS DO RIO PRETO
  9. LUA DE FOGO
  10. VOU ACORDAR COM ESSA NOVA IDEIA NA CABEÇA

 

Ficha técnica

Gravado e produzido no Estúdio Ori, em Salvador-BA

Produção musical por Tangolo Mangos e Apu Tude

Engenharia de som, mixagem e masterização por Apu Tude e Victor Vaughan

Assistência de som e roadie por Pinguim (Johnathan Tesser)

Arte de capa por Felipe Vaqueiro e João Antônio Dourado

Fotografia original por Sérgio Amaral / Estadão Conteúdo

Scanner de impressões por Gabriela Cobas